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Outros contos de verão

Luis Fernando Verissimo

Foi um alvoroço, um rebuliço, uma bulha, uma azáfama, um corre-corre. Um passarinho dentro de casa! Pega a vassoura! Espanta! Bota pra fora! Só quem ficou calmo foi o tio Nestor, de quem se dizia que, em caso de incêndio, pesaria bem as desvantagens de morrer queimado antes de se mexer da sua cadeira. Que mal tinha um passarinho dentro de casa? Tá doido, gritou a Mônica, sempre dramática. Ele vai comer os nossos olhos. No meio da noite, vai bicar os nossos olhos como carambolas. A dona Clara, mais prática, se preocupava com o cocô do passarinho dentro de casa. Espanta! Bota pra fora! E o passarinho apavorado, voando de um lado para o outro, se batendo contra as paredes. Até que a Lívia saiu do seu quarto para ver que confusão era aquela. Lívia com suas olheiras, Lívia com sua cara branca de penitente. Ela estendeu o braço, a mão meio azul, e o passarinho veio pousar no seu dedo magro, e ela levou o passarinho para dentro do seu quarto e trancou a porta. Ficaram todos pensando no que aconteceria com o passarinho dentro do quarto com a Lívia. Com a pobre da Lívia, tão estranha, tão boa, disse dona Clara. Viu como ela é bruxa? Disse a Mônica. Não tem essa história de depressão de fundo nervoso. Ela é bruxa, mamãe. Ela vai soltar o passarinho, disse dona Clara. Vai lhe dar conselhos sobre como evitar as maldades do mundo e soltá-lo pela janela, pobre da Lívia. Vai comer ele vivo, disse Mônica, sempre dramática. Primeiro a cabeça: “Nhaque!” o fato é que pelo resto do dia não se ouviu ruído algum do quarto da Lívia.


O NÃO DITO

No dia 1º a Josete telefonou para o Paulo André e pediu para ele esquecer tudo que ela tinha lhe dito na passagem do ano. Sabe como é, aquele entusiasmo, muita champanha, a gente se emociona e diz bobagem. Fala o que não quer, diz o que não deveria dizer... Enfim, esquece, viu? Não era eu falando, era a...

O Paulo André a interrompeu. Josete estava enganada. Não era pra ele que ela tinha falado o que não queria, dito o que não deveria. Que se lembrasse, eles só tinham trocado dois beijos na passagem do ano. Bochecha, bochecha, felicidade e só.

- Só?

- Só.

Quem sabe o Paulo André também estava bêbado e não se lembrava do que ouvira? Não, não. Bebera muito pouco na festa. Aliás, só bebera champanha para brindar o ano novo. No resto do tempo ficara na coca diet.

- Então não foi você que eu disse que amava?

- Não.

- Que eu disse que amava há anos e nunca tinha tido coragem de dizer?

- Não.

- Tem certeza?

- Tenho. Nós mal trocamos duas palavras na festa.

- Então pra quem foi que eu disse, meu Deus?

- Não sei.

- Eu confundi você com outro.

- Ou confundiu outro comigo.

- Tem alguém, hoje, convencido de que eu o amo. Que amo há anos e não tinha coragem de dizer. E eu não sei quem é!

- Mas ele deve ter notado que não era verdade. Que era a champanha falando. A emoção do momento.

- Ah. Pois é. Você acha?

- Ou era verdade?

- Não. Que ideia. Era a emoção do momento, a champanha.

- Então tudo bem.

- É...

- Fica o dito por não dito. Nenhum estrago feito.

- Certo. Então... Desculpe a confusão, viu, Paulo André?

- Quié isso.

- Feliz Ano-Novo.

- Cê também.


AVISO IMPORTANTE

Da série “Poesia numa hora dessas?!”

O uso excessivo
do telefone celular
frita o seu cérebro
como uma fornalha.
Não é verdade
mas espalha, espalha.


Domingo, 2 de janeiro de 2005.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.